O Enfeitar das Fontes é uma tradição comunitária da freguesia de Ortiga, concelho de Mação, que se cumpre na noite de 1 de maio: as fontes da freguesia são enfeitadas com flores pelos moradores.1

A par da serração das velhas, é uma das duas tradições que o historiador João de Matos Filipe identificou, em entrevista publicada em 2020, como ainda resistentes em Ortiga, no âmbito do património cultural imaterial da freguesia.1

A prática

O embelezamento é feito «de forma natural e autónoma», com o envolvimento da comunidade de cada bairro no enfeitar da sua própria fonte, «sob lideranças informais geradas no seio do grupo e sem interferência de outras quaisquer pessoas ou organizações».1

A organização não depende, por isso, de nenhuma associação nem do poder local: resulta de uma coordenação espontânea, gerada dentro de cada bairro. O mesmo relato sublinha «o forte empenho e esforço das mulheres no envolvimento de todos, jovens e menos jovens de ambos os sexos», num esforço apresentado como forma de «assegurar o futuro de uma sociedade» dotada de um forte espírito coletivo.1

A tradição inscreve-se no que o mesmo investigador descreve como o «poder do coletivo» do povo de Ortiga — atitude que liga a formas antigas de entreajuda, como a construção e exploração das pesqueiras, com vários donos «desde há séculos», e a partilha das águas de rega, registada em escrituras oitocentistas.1

As fontes enfeitadas

Além das fontes da freguesia, a data está associada ao busto de João de Oliveira Casquilho, o benemérito que financiou, em 1923, a construção da primeira fonte pública de Ortiga e a canalização de água potável desde a Corga das Figueiras, numa extensão que ronda ou ultrapassa os 2,5 quilómetros. Nas palavras de João de Matos Filipe, «para lá das fontes, atualmente também não é esquecido o busto de João de Oliveira Casquilho».1

Pela legenda de uma fotografia da imprensa regional está documentada a Fonte do Monte Novo.1 Uma listagem das chamadas «sete fontes da aldeia», que se iniciaria na Fonte da Estação, circula em referências de imprensa regional, mas não foi possível confirmá-la integralmente: o texto original já não está disponível em linha e a lista só é conhecida de forma truncada.2 O número exato de fontes enfeitadas permanece, por isso, por apurar.

Enquadramento e lacunas

O Enfeitar das Fontes não deve ser confundido com a serração das velhas, a outra tradição imaterial da freguesia, celebrada na Quaresma e dedicada às mulheres que foram avós no ano anterior.1

A informação disponível sobre o Enfeitar das Fontes assenta, na sua quase totalidade, num único testemunho — a entrevista de João de Matos Filipe ao mediotejo.net —, complementado por registos fotográficos de imprensa.1 O jornal O MIRANTE dedicou-lhe pelo menos duas peças, uma delas assinada pelo próprio investigador, mas nenhuma delas pôde ser confirmada na consulta de hoje.3 Não foi localizado qualquer estudo etnográfico dedicado à prática, qualquer inventário ou classificação no âmbito do património cultural imaterial, nem documentação sobre a sua origem. Não estão apuradas a data de início da tradição, a sua eventual evolução ao longo do tempo, o modo como as flores e os adornos são escolhidos, nem se todas as fontes da freguesia são enfeitadas em cada ano. É um dos pontos em que a recolha de memória oral no terreno seria determinante.

Dados principais

  • Denominação: Enfeitar das Fontes
  • Variante atestada: «Enfeitar as Fontes»
  • Data: noite de 1 de maio
  • Local: freguesia de Ortiga, Mação, Santarém
  • Natureza: tradição comunitária; património cultural imaterial
  • Agentes: moradores de cada bairro, com liderança informal das mulheres
  • Elementos associados: as fontes da freguesia e o busto de João de Oliveira Casquilho
  • Fonte documentada: Fonte do Monte Novo
  • Número de fontes enfeitadas: por apurar
  • Origem e datação: não apuradas

Ver também

Fontes

  • Mourato, Paula, Ortiga, um topónimo pouco pacífico em terra de gente determinada e consciente que a união faz a força, mediotejo.net, 2020 (republicado em agosto de 2023) — mediotejo.net
  • Em Ortiga, no 1.º de Maio cumpriu-se a centenária tradição do Enfeitar as Fontes, O MIRANTE, 3 de maio de 2023 — omirante.pt (existe referência, mas a página devolvia erro 500 à data da consulta; não foi possível aceder-lhe)
  • O Enfeitar das Fontes em Ortiga, artigo de opinião assinado por João de Matos Filipe, O MIRANTE, 4 de maio de 2015 — pista, não fonte verificada (ver nota 3)

Notas

  1. Mourato, Paula, «Ortiga, um topónimo pouco pacífico em terra de gente determinada e consciente que a união faz a força», mediotejo.net, 2020, republicado em agosto de 2023 (consultado em 18 de outubro de 2026). Entrevista ao historiador João de Matos Filipe. A descrição da festividade do 1 de maio, das lideranças informais por bairro, do papel das mulheres, do busto de João de Oliveira Casquilho e da Fonte do Monte Novo consta desta peça; a ligação à partilha das águas e às pesqueiras é desenvolvida na mesma entrevista. A fotografia que documenta a Fonte do Monte Novo é creditada ao mediotejo.net. ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8 ↩9

  2. A existência de uma listagem das «sete fontes da aldeia», encabeçada pela Fonte da Estação, é conhecida apenas por um excerto truncado de imprensa regional. O texto original e o sítio que o alojava deixaram de estar disponíveis e não foi possível recuperar a lista completa por outra via. O dado é registado como pista, não como facto: o número e a identificação das fontes enfeitadas não estão confirmados. Uma consulta direta à Junta de Freguesia de Ortiga seria o meio mais direto de os apurar. ↩

  3. O MIRANTE publicou sobre esta tradição, pelo menos, uma notícia de 3 de maio de 2023 — «Em Ortiga, no 1.º de Maio cumpriu-se a centenária tradição do Enfeitar as Fontes» — e um artigo de opinião de 4 de maio de 2015, assinado por João de Matos Filipe, cujo excerto conhecido é «E mais uma vez se cumpriu a secular tradição do «Enfeitar das Fontes»». Nenhum dos dois pôde ser confirmado na consulta de hoje: as páginas de artigo do omirante.pt devolviam erro 500, e a captura de 2015 do artigo de opinião só é alcançável por um percurso que o robots.txt do Arquivo.pt desautoriza, pelo que não foi reutilizada como prova. Ambos são registados como pista. A expressão «centenária tradição», no título de 2023, é compatível com o uso de «secular» em 2015, mas nenhuma das duas permite datar a origem da prática, que continua por apurar. ↩